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quinta-feira, 27 de junho de 2013
Nehte Ufpe: ‘Não podemos ver o celular como inimigo’
Nehte Ufpe: ‘Não podemos ver o celular como inimigo’: POR VAGNER DE ALENCAR O uso dos dispositivos móveis é apontado por especialistas como uma modalidade de ensino-aprendizagem que aprov...
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Declaração de males
Paulo
Mendes Campos
Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.
Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios... the pule cast of throught... sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.
Texto extraído do livro "O amor acaba", Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1999, pág. 259, organização de Flávio Pinheiro.
domingo, 8 de julho de 2012
Caso do Vestido - Carlos Drummond de Andrade
Adoro esse poema!!!
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?
vestido, naquele prego?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.
que vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.
está morto, sossegado.
Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...
e fosse dormir com ele...
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.
os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.
me curvei... disse que sim.
Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
não comia, não falava,
tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.
mas a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,
fiquei de cabeça branca,
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
pagou conta de farmácia.
Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,
não te dou vosso marido,
que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.
ao depois amor pegou.
Mas então ele enjoado
confessou que só gostava
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,
no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.
e me dai vosso perdão.
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,
e disse apenas: — Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,
Eu fiz, ele se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.
vestido não há... nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
vosso pai subindo a escada.
Texto extraído do livro "Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, pág. 157.
sábado, 30 de junho de 2012
Cilada verbal - Afonso Romano de Santana
Há vários modos de
matar um homem:
com o tiro, a fome
a espada
ou com a palavra
- envenenada.
Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
- na sintaxe da
emboscada.
terça-feira, 26 de junho de 2012
POEMARGENS: Fernando Pessoa
POEMARGENS: Fernando Pessoa: A Minha Vida é um Barco Abandonado A minha vida é um barco abandonado Infiel, no ermo porto, ...
domingo, 27 de maio de 2012
sábado, 26 de maio de 2012
CONTEÚDO LIVRE: Tarefa do pensamento - João Paulo
Tenho uma grande admiração por esse pensador brasileiro.
CONTEÚDO LIVRE: Tarefa do pensamento - João Paulo: Dez anos da morte do pensador Henrique Cláudio de Lima Vaz são lembrados com lançamento de livros inéditos e de coleção dedicada ao filósofo...
CONTEÚDO LIVRE: Tarefa do pensamento - João Paulo: Dez anos da morte do pensador Henrique Cláudio de Lima Vaz são lembrados com lançamento de livros inéditos e de coleção dedicada ao filósofo...
CONTEÚDO LIVRE: ENTREVISTA/ ANA MARIA MACHADO - Ana Clara Brant
Muito boa essa entrevista da escritora Ana Maria Machado
CONTEÚDO LIVRE: ENTREVISTA/ ANA MARIA MACHADO - Ana Clara Brant: Amor à leitura Escritora com mais de 100 livros publicados fala dos projetos à frente da Academia Brasileira de Letras Ana Clara B...
CONTEÚDO LIVRE: ENTREVISTA/ ANA MARIA MACHADO - Ana Clara Brant: Amor à leitura Escritora com mais de 100 livros publicados fala dos projetos à frente da Academia Brasileira de Letras Ana Clara B...
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Para Maria da Graça - Paulo Mendes Campos
Essa crônica é simplesmente maravilhosa!!!
Agora que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no país das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”.
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás.
Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável.
Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato.
Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu? “.
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namoradas, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhastes.
Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes.
Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mais devagar, muito devagar. Quero dizer seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte: É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas.
Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
(Do livro “O Colunista do Morro”, 1965).
segunda-feira, 21 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
MOINHO DE SONHOS
Texto belíssimo!!! Confiram!!! Adoro os contos João Anzanello Carrascoza
A mulher e o menino iam montados no cavalo; o homem ia ao lado, a pé.
Andavam sem rumo havia semanas, até que deram numa aldeia à beira de um rio,
onde as oliveiras vicejavam.
Fizeram uma pausa e, como a gente ali era hospitaleira e a oferta de
serviço abundante, resolveram ficar. O homem arranjou emprego num moinho
próximo à aldeia. A mulher se juntou a outras que colhiam azeitonas em terras
ao redor de um castelo. Levou consigo o menino que, no meio do caminho, achou
um velho cabo de vassoura e fez dele o seu cavalo. Deu-lhe o nome de
Rocinante.
Ao chegar aos olivais, o pequeno encontrou o filho de outra colhedeira
- um garoto que se exibia com um escudo e uma espada de pau.
Os dois se observaram à distância. Cada um se manteve junto à sua mãe,
sem saber como se libertar dela. Vigiavam-se. Era preciso coragem para se
acercar. Mas meninos são assim: se há abismos, inventam pontes.
De súbito, estavam frente a frente. Puseram-se a conversar, embora um
e outro continuassem na sua. Logo esse já sabia o nome daquele: o menino
recém-chegado se chamava Alonso; o outro, Sancho.
Começaram a se misturar:
- Deixa eu brincar com seu cavalo?, pediu Sancho.
- Só se você me emprestar sua espada, respondeu Alonso.
Iam se entendendo, apesar de assustados com a felicidade da nova
companhia.
Avançaram na entrega:
- Tá vendo aquele moinho gigante?, apontou Alonso.
Meu pai sozinho é que faz ele girar.
- Seu pai deve ter braços enormes, disse Sancho.
- Seu pai deve ter braços enormes, disse Sancho.
- Tem! Mas nem precisava, respondeu Alonso. Ele
move o moinho com um sopro.
Sancho achou graça. Também tinha uma proeza a
contar:
- Tá vendo o castelo ali?, apontou. Meu pai disse
que o dono tem tanta terra que o céu não dá para cobrir ela toda.
- E se a gente esticasse o céu como uma lona e
cobrisse o que está faltando?, propôs Alonso.
- Seria legal, disse Sancho. Mas ia dar um trabalhão.
- Seria legal, disse Sancho. Mas ia dar um trabalhão.
Temos de crescer primeiro.
Bom, enquanto a gente cresce, vamos pensar num
jeito de subir até o céu! - disse Alonso.
- Vamos!, concordou Sancho.
- Vamos!, concordou Sancho.
Sentaram-se na relva. O cavalo, a espada e o escudo
entre os dois. Um sopro de vento passou por eles.
Já eram amigos: moviam juntos o mesmo sonho.
João Anzanello Carrascoza
Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br
Acesso em: 20.01.2012
domingo, 6 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
O caso do espelho
Este conto é simplesmente maravilhoso!!!!!! Já faz algum tempo que o conheço. Todas as vezes que o leio me divirto bastante! A ilustração ficou sensacional!!!
Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata.
Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos. Depois gritou, com o espelho nas mãos:
- Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui?
Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata.
- Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui?
- Isso é um espelho - explicou o dono da loja.
- Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai.
Os olhos do homem ficaram molhados.
- O senhor... conheceu meu pai? - perguntou ele ao comerciante.
O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira.
- É não! - respondeu o outro. - Isso é o retrato do meu pai. É ele, sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito?
O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho.
Naquele dia, o homem que não sabia quase nada entrou em casa todo contente. Guardou, cuidadoso, o espelho embrulhado na gaveta da penteadeira.
A mulher ficou só olhando.
No outro dia, esperou o marido sair para trabalhar e correu para o quarto. Abrindo a gaveta da penteadeira, desembrulhou o espelho, olhou e deu um passo atrás. Fez o sinal da cruz tapando a boca com as mãos. Em seguida, guardou o espelho na gaveta e saiu chorando.
- Ah, meu Deus! - gritava ela desnorteada. - É o retrato de outra mulher! Meu marido não gosta mais de mim! A outra é linda demais! Que olhos bonitos! Que cabeleira solta! Que pele macia! A diaba é mil vezes mais bonita e mais moça do que eu!
- Quando o homem voltou, no fim do dia, achou a casa toda desarrumada. A mulher, chorando sentada no chão, não tinha feito nem a comida.
- Que foi isso, mulher?
- Ah, seu traidor de uma figa! Quem é aquela jararaca lá no retrato?
- Que retrato? - perguntou o marido, surpreso.
- Aquele mesmo que você escondeu na gaveta da penteadeira!
O homem não estava entendendo nada.
- Mas aquilo é o retrato do meu pai! Indignada, a mulher colocou as mãos no peito:
- Cachorro sem-vergonha, miserável! Pensa que eu não sei a diferença entre um velho lazarento e uma jabiraca safada e horrorosa?
A discussão fervia feito água na chaleira.
- Velho lazarento coisa nenhuma! - gritou o homem, ofendido.
A mãe da moça morava perto, escutou a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. Encontrou a filha chorando feito criança que se perdeu e não consegue mais voltar pra casa.
- Que é isso, menina?
- Aquele cafajeste arranjou outra!
- Ela ficou maluca - berrou o homem, de cara amarrada.
- Ontem eu vi ele escondendo um pacote na gaveta lá do quarto, mãe! Hoje, depois que ele saiu, fui ver o que era. Tá lá! É o retrato de outra mulher!
A boa senhora resolveu, ela mesma, verificar o tal retrato.
Entrando no quarto, abriu a gaveta, desembrulhou o pacote e espiou. Arregalou os olhos. Olhou de novo. Soltou uma sonora gargalhada.
- Só se for o retrato da bisavó dele! A tal fulana é a coisa mais enrugada, feia, velha, cacarenta, murcha, arruinada, desengonçada, capenga, careca, caduca, torta e desdentada que eu já vi até hoje!
E completou, feliz, abraçando a filha:
- Fica tranqüila. A bruaca do retrato já está com os dois pés na cova!
Conto popular recontado por Ricardo Azevedo, ilustrado por Alarcão
Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/caso-espelho-634284.shtml
Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/caso-espelho-634284.shtml
Dona Licinha
Sou apaixonada por esse conto de Fanny Abramovich
A senhora não me conhece. Faz tanto tempo e me lembro de detalhes do seu jeito, sua voz, seu penteado e roupas... A senhora ensinava na 3a série B e eu era aluna da 3a série C no Grupo Escolar do Tatuapé... Passava no corredor fazendo figa para mudar de classe, pra minha professora viajar e nunca mais voltar, pra diretora implicar e me mandar pra 3a B... Nunca tive tanta inveja na minha vida como tive das crianças da série B...
Lembro que na sua sala se ouviam risadas quase o tempo todo. Maior gostosura! De vez em quando, um enorme silêncio quebrado por uma voz suave... era hora de contar histórias. Suspirando, eu grudava na janela e escutava o que podia... Também muitos piques e hurras, brincadeiras correndo solto. Esconde-esconde, telefone-sem-fio, campeonato de Geografia. Tanto fazia a aprontação inventada. Importava era sentir a redonda contenteza dos alunos.
A sua sala era colorida com desenhos das crianças, um painel com recortes de revistas e jornais, figurinhas bailando em fios pendurados, mapas e fotos... Uma lindeza rodopiante mudada toda semana! Vi pela janela seus alunos fantasiados, pintados, emperucados, representando cenas da História do Brasil! Maior maravilhamento! Demorei, entendi. Quem nunca entendeu foi a minha professora... Seu segredo era ensinar brincando. Na descoberta! Na contenteza!
Nunca ouvi berros, um "cala boca", "aqui quem manda sou eu" e outras mansidões que a minha professora dizia sem cansar. Não escutei ameaças de provas de supetão, castigos, dobro da lição de casa, chamar a diretora, com que a minha professora me aterrorizava o tempo todo...
Dona Licinha, eu quis tanto ser sua aluna quando fiz a 3a série. Não fui... Hoje, tanto tempo depois, sou professora. Também duma 3a série. Agora sou sua colega... Só não esqueço que queria estar na sua classe, seguir suas aulas risonhas, sem cobranças, sem chateações, sem forçar barras, sem fazer engolir o desinteressante. Numa sala colorida, iluminada, bailante. Também quero ser uma professora assim. Do seu jeito abraçante.
Hoje, vi uma garotinha me espiando pela janela. Arrepiei. Senti que estava chegando num jeito legal de estar numa sala de aula... Por isso resolvi escrever para a senhora. Vontadona engolida por décadas. Tinha que dizer que continuo querendo muito ser aluna da dona Licinha. Agora, aluna de como ser professora. Fazendo meus alunos viverem surpresas inventivas.
Um abraço apertado, cheinho de gostosuras, da Ciça
Conto de Fanny Abramovich, ilustrado por Carlo Giovani. Foto de Leo Feltran
Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/dona-licinha-634216.shtml. Acesso em: 02.05.2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
domingo, 29 de abril de 2012
Muito bom esse texto sobre leitura e qualidade do ensino. Recomendo a leitura
Leitura e qualidade do ensino
Leitura e qualidade do ensino
Por María Beatriz Medina
María Beatriz Medina nasceu na
Venezuela. Formada em letras, autora, mediadora, pesquisadora na área de
leitura y literatura infantil, professora, e consultora. Atualmente participa
da Comissão Executiva do Banco del Libro, é presidente da filial venezuelana do
IBBY e membro do Conselho de Sinergia, uma rede de associações da sociedade
civil venezuelana.
Quando recebi o convite para
refletir sobre leitura e qualidade de ensino, me posicionei a partir do ponto
de vista de meu trabalho como promotora de leitura. E desse lugar me aproximei
do tema, agradecendo o convite, pois tais reflexões nos permitem tomar
distância e pensar sobre o que fazemos e como fazemos.
O engate inicial com essa
temática começou a se delinear a partir do que já trazíamos dentro dos alforjes,
como mediadores preocupados em formar um sujeito leitor independente, crítico e
cidadão responsável. Isto é, o desideratum implícito – ainda que no discurso –
presente em todos os espaços de promoção de leitura e, principalmente, na
escola.
Parecia fácil. Comecei fazendo um
balanço das possibilidades que a leitura oferece por e para a formação, mas no
caminho comecei a perceber – uma vez mais – que aproximar-se da leitura e do
trabalho de formar leitores é uma tarefa árdua, se avaliada pelas dimensões da
busca e pelo fio da evolução de um conceito sempre em reformulação.
I. Do que estamos
falando quando falamos em leitura?
Não podemos dizer que
compartilhamos do mesmo conceito de leitura revisto e transformado por
motivações ideológicas e pedagógicas e matizado por contribuições de concepções
sociolinguísticas e socioculturais de diferentes naturezas. Hoje em dia,
inclusive, se cai muitas vezes no erro de considerar que ler é simplesmente a
habilidade de decifrar signos, quando o ato de ler vai muito além deste
deciframento.
A leitura é acumulativa e propõe
sempre um diálogo entre o leitor e os códigos verbais e não verbais, que se
transforma em um espaço de elaboração e de construção de um ser social e
individual. A leitura é, antes de tudo, um ato comunicacional e – por isso –
uma prática social que entrelaça o texto escrito e o uso da linguagem. Quando
nos aproximamos com atenção da prática leitora, ou do uso da leitura dos textos
escritos, podemos percebê-la como uma prática social vital, situada na interação
pessoal.
David Barton e Mary Hamilton, no
texto “La literacidad entendida como práctica social”, consideram que a leitura
é capaz de “dar sentido às vidas por meio das práticas cotidianas”.
Não se trata de uma referência
casual, pois aqueles que como eu trabalham em projetos de promoção de leitura
podem constatar que a leitura dá sentido à vida, não apenas nas práticas
cotidianas, mas em situações difíceis, em que a ficção ou a metáfora se
transformam em ferramentas de exceção “para ler o entorno e interpretar a
realidade”. Por isso é necessário formar leitores como habitantes do mundo,
parafraseando Daniel Goldin.
Mas a leitura funciona também
como uma estratégia para o ensino, ainda que tenhamos que evitar o perigo de
cair no reducionismo instrumental ao considerá-la apenas uma ferramenta para o
desenvolvimento de competências que se identificam com a compreensão das
estruturas lógicas para apreender de qualquer maneira um texto proposto.
II. Para que formar
leitores?
O tema da formação de leitores
está relacionado ao tipo de cidadão que queremos. Sem sombra de dúvidas,
aspiramos a um leitor crítico, capaz de se posicionar no mundo, um leitor que
transcenda o mero deciframento e seja capaz de abordar a leitura informativa e
estética, enfrentando o texto, questionando-o, sentindo-o.
A palavra escrita e a leitura nos
ajudam a criar espaços para o desenvolvimento e a transformação individual e
social, uma vez que a experiência estética abarca a vastidão de nossa
contraditória condição humana e estabelece pontes com a realidade na qual
estamos submersos. Ela faz isto, claro está, de maneira metafórica e abstrata,
para possibilitar o desenvolvimento do ser social.
III. Quem é o responsável pela formação de leitores?
O Estado, sem dúvida. Ele é o
centro decisivo na hora da formulação, orientação e coordenação das políticas
públicas de leitura. Formar leitores exige o compromisso do Estado e uma sólida
articulação de distintas esferas da vida social: em primeiro lugar a escola, a
biblioteca, as organizações sociais que trabalham com a leitura e a indústria
do livro.
A formação de leitores, cabe
frisar, é uma pratica ancorada em solidas premissas sobre a leitura, tais como:
Constitui-se num elemento
inevitável na hora de educar para a vida democrática e participativa.
É um espaço para a formação do
cidadão responsável.
Transforma-se na “ferramenta” do
desenvolvimento de seres autônomos e críticos.
É uma bússola que orienta no
campo da informação e leva ao conhecimento.
Somos obrigados a levar em conta
as necessidades do contexto. Pois é justamente quando o contexto se faz
presente, o momento em que começam a sucumbir as certezas destas e de outras
premissas; isto porque a prática nos demonstra a saciedade da condição
modificadora da realidade.
III. Voltando ao tema que nos interessa: Leitura e qualidade
do ensino.
Em uma primeira aproximação,
vemos uma equação direta que deveria nos levar a fechar questões acerca do
trabalho contínuo e sustentado de formação de leitores em todos os espaços que
assumem esta tarefa. Obviamente, a escola não é uma exceção.
No entanto, para que essa equação
se faça realidade, é necessário assumir a leitura como um elemento vital de
desenvolvimento humano e promover, ao mesmo tempo, a internacionalização de uma
verdadeira valorização dessa prática.
É tarefa dos docentes articular
caminhos que deixem inequívoca a condição essencial da leitura para o ser
humano e abram as comportas para a multiplicidade de possibilidades que oferece
ao leitor como ferramenta para a comunicação e a experiência docentes.
IV. Como conseguir
isso na prática?
1. Em primeiro lugar, repetirei
uma máxima: criando dentro da escola espaços e tempos de leitura de uma grande
variedade de textos. Isto é, propiciando em espaços leitores e bibliotecas
escolares o encontro com textos de diferentes formatos, alinhados com os
objetivos escolares e assumindo a leitura como condição essencial para o
desenvolvimento pessoal e social, como centro das práticas educativas (no
plural) e como eixo transversal.
Uma prática que implique na
intenção de construir um marco do fazer educativo em afinidade com as correntes
contemporâneas teóricas e práticas, por meio de um leque de opções leitoras que
se transforma no ponto de encontro de inclinações e preferências temáticas.
2. Cabe-nos, portanto, reverter o
lema da descolarizacão que nós, promotores de leitura, temos defendido, uma vez
que boa parte das práticas escolares tinham desterrado a condição prazerosa que
as primeiras aproximações com a leitura exigem, isto em nome do “trabalhoso
prazer de ler”, que promove esse tropeçar com a linguagem escrita, “com as suas
ambiguidades e entonações”. Hoje em dia não é mais suficiente escutar a
narração do conto, é preciso “tê-lo lido, isto é olhá-lo como uma forma e
transitá-lo, palmo a palmo, como quem percorre um terreno minado” – como afirma
María Fernanda Palácios. A literatura é, dentre todos os textos escritos, um
recurso de exceção para o desenvolvimento da leitura. María Eugenia Dubois
afirma que o “Sistema educativo em geral nunca levou em conta a transcendência
de ler desde uma postura estética: evocando imagens, recordações, sentimentos,
emoções. A leitura se estuda na escola como algo à margem, que está fora de nós
mesmos para ser carregado, levado, recordado, mas não vivido, sentido.”
E é assim porque a literatura põe
à prova nossa visão ordinária das coisas, e questiona nossos preconceitos.
Permite ao homem, pegando emprestadas as palavras de Stevenson “chegar a
compreender que não tem sistematicamente razão, e que aqueles de quem discorda
não estão sempre absolutamente equivocados.”
3. Reivindicar a literatura
dentro da escola. O que implica a “criação de um itinerário de leitura por
parte dos docentes que permita às novas gerações transitar para as
possibilidades de compreensão do mundo e desfrutar para a vida que a literatura
abre”, como diz Teresa Colomer na introdução de Andar entre livros.1
Traçar, então, um itinerário de
leitura, que depurado, decantado, maduro, permite uma experiência de mudança
pessoal e social na qual cada um pode se reconhecer ou não. A escola não pode
se isolar do contexto social no momento de estabelecer os objetivos de ensino,
seus conteúdos e a maneira de transmiti-los.
Nessa aceitação transversal da
leitura é preciso sustentar, em primeiro lugar, a leitura estética que nos leva
a enfrentar os desafios das estruturas mentais e abre brechas na consciência do
leitor, o que pode nos distanciar da literariedade.
Com isso não se quer dizer
excluir a leitura informativa, apenas que o itinerário do leitor se afirma
desde uma aproximação estética para abrir as comportas da compreensão textual
que deriva de outros tipos de texto que dinamizam o aprendizado.
4. Criar as condições para um
verdadeiro trabalho em rede, que tem se limitado a ser apenas anunciado, como
podemos comprovar na prática com frequência. Um trabalho no contexto de
políticas de leitura e escrita educativas, em torno das quais se articulam as
estratégias interdisciplinares que fomentam a competência discursiva na aula.
5. Formar o docente como leitor,
como conhecedor das propostas textuais estéticas e informativas e envolver a
família no processo. Essas ações se dirigem, principalmente, às crianças e
jovens em processo de formação. É precisamente para esse destinatário que a
articulação se faz necessária. A escola e a família constituem instituições
básicas de qualquer formulação de planos integrais de leitura; daí o trabalho
de sensibilização e capacitação de pais e professores se convertem em etapas
inevitáveis em programas dessa natureza.
Enfim, estamos diante de um
itinerário possível, que ganha sentido apenas a partir de uma verdadeira
valorização da leitura que nos conecte com a realidade através da palavra que
tudo contém e que é, principalmente, uma forma de interagir com a realidade, de
reinterpretá-la. Assim, a leitura se constitui – tomando emprestada uma
expressão dos pescadores da costa oriental da Venezuela – num cabo de terra.
TRADUÇÃO: DOLORES PRADES
* Texto apresentado no Encontro de Leitura e Qualidade do
ensino, organizado pela OEI e a Fundação SM, em Bogotá, novembro de 2009.
1 Colomer, Teresa. Andar entre livros. São Paulo: Global,
2007.
Bibliografia citada:
Agenda de políticas públicas sobre o livro e a edição,
CERLALC.
Caraballo, Darwin; Pífano Clementina; Medina, María Beatriz.
Consultora: María Elena Zapata. Libros para niños y jóvenes. Documentos de
trabajo de Desarrollo Social – Educación. Caracas: Corporación Andina de
Fomento, 2005.
Chartier, Anne-Marie. Enseñar a leer y escribir: una
aproximación histórica. Espacios para la lectura. México: Fondo de Cultura
Económica, 2004.
Larrosa, Jorge. La experiência de la lectura: espacios para
la lectura. México: Fondo de Cultura Económica, 2003.
Palácios, Maria Fernanda. Cuentos para volar: 10 relatos
venezolanos para celebrar un doble aniversario. Caracas: Producto, 2002.
Rosenblatt, Louise M. La experiencia de la lectura: espacios
para la lectura. México: Fondo de Cultura Económica, 2002.
Disponível em: http://www.revistaemilia.com.br.
Acesso em: 28.04.2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
Excelente esse texto de Sírio Possenti sobre a polêmica envolvendo a retirada do dicionário Houaiss do mercado.
LIMPAR LIVROS? NOTA SOBRE DICIONÁRIOS
Há alguns dias se debate (não muito, claro) uma ação do Ministério Público de Uberlândia "contra" o dicionário Houaiss, por registrar acepções pejorativas da palavra "cigano". É mais uma atitude equivocada regida pela doutrina do politicamente correto, tão relevante em algumas ocasiões, tão mal compreendida em tantas outras.
Diversas manifestações bastante óbvias tentaram fazer com que o representante do MP entenda que dicionário é apenas o registro mais ou menos completo das palavras e de seus sentidos. Dicionário não inventa palavras; não inventa os sentidos das palavras; não incentiva uso de palavras em sentidos desabonadores (ou não); não condena palavras nem sentidos. Dicionário não ensina (a não ser indiretamente ortografia e sentidos de palavras até então desconhecidas). O que não quer dizer que seja "neutro", elaborado por marcianos ou anjos sem interesse ideológico. Sempre terá que tomar decisões – como outras tantas publicações nas áreas da economia, da política, da história, da ecologia, da religião…
Mas, se for bom, minimamente bom, anota as palavras atestadas e seus sentidos mais ou menos duradouros ou datados. Por exemplo, fui ao dicionário (Houaiss!) para saber se o emprego de "albergar", que aparece em citação na ação do Dr. Cléber Eustáquio Neves é adequado ou se é uma dessas manias estilísticas dos juristas: "o direito à liberdade de expressão não pode albergar posturas preconceituosas e discriminatórias, sobretudo quando caracterizadas como infração penal". O sinônimo mais próximo que achei foi "abrigar". Que já é uma metáfora das boas.
Na minha infância, por razões que não vêm ao caso, tive experiências razoavelmente significativas com ciganos, que, passando por Arroio Trinta, acampavam perto de nossa casa e nos visitavam para negócios diversos: comprar comida, vender tachos e cavalos, ofertas para ler nossas mãos etc. Circulavam avaliações sobre eles e seus comportamentos. Preconceituosas? Exageradas? Pode ser. Uma era que se deveria ter cuidado ao negociar com eles. Seriam muito espertos (mas quem não tentava ser esperto em situações desse tipo?).
É apenas um estereótipo, coisa comum. Circulam estereótipos de corintianos, de argentinos, de ingleses, de portugueses. E de ciganos. Que podem ou devem ser combatidos, mas nas arenas adequadas. A censura a um dicionário certamente não é uma delas, dada a natureza da obra. Registrar sentidos é um trabalho que não busca fundamento ou abrigo (albergue!) na liberdade de expressão. Dicionaristas estão longe de pensar assim. Ninguém está enunciando o que registra num dicionário. Nem mesmo seu autor. Nem está citando e dando a entender que concorda. Só registra (com vieses, como disse).
Pedir que a edição seja recolhida ou modificada é equivalente a pedir que se retirem animais de catálogos da fauna, ou que livros de anatomia suprimam órgãos ou partes do corpo que pareçam ofensivos (intestino grosso, pênis, cordas vocais etc., conforme o gosto ou a olhar do leitor – você já viu cordas vocais de perto?). A atitude lembra uma regra brasileira, se não mundial: denunciado um crime, pune-se o repórter e censura-se o jornal. Ou tira-se o sofá da sala…
Se o MP acha que deve agir em questões de ofensa à honra e casos assemelhadas, que processe, por exemplo, quem chama de cigano aos velhacos (nenhum dos cidadãos processados nos últimos tempos foi chamado de cigano; muito menos políticos considerados corruptos).
Aliás, para fundamentar sua ação, o MP vai precisar de um dicionário em que a acepção injuriosa esteja registrada e avaliada como negativa. Sem ela, vai se basear em quê? No gosto do funcionário?
Publicado em: http://terramagazine.terra.com.br/blogdosirio/blog/2012/03/08/limpar-livros-nota-sobre-dicionarios/
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