quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Receita de ano novo - Carlos Drummond de Andrade



Gosto muito desse texto.Para mim ele é sempre muito atual. Confiram!


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Disponível em: http://www.revista.agulha.com.br/ . Acesso em: 22.12.2010

Organiza o Natal - Carlos Drummond de Andrade


Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade.


Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
E será Natal para sempre.


Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CANÇÃO DA ALMA CAIADA

Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar


Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.


Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.


De dia caio minh'alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.

Disponível em: http://www2.uol.com.br/antoniocicero/ Aesso em: 16.12.2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mais um tabu cai por terra no câncer de mama

Sempre li matérias sobre saúde. Agora estou mais atenta. Tb irei publicá-las aqui.

sex, 10/12/10 por luisfernandocorreia categoria Saúde em foco

Caiu por terra o tabu de que as mulheres operadas para câncer de mama não devem fazer musculação ou carregar peso.Durante muito tempo essas pacientes tinham medo do inchaço que as atividades causariam no braço do lado operado. Esse inchaço, que é o linfedema, é um efeito colateral bastante comum desse tipo de tratamento. A causa é a dificuldade de circulação da linfa, liquido que corre entre os linfonodos. A cirurgia de tratamento do tumor de mama algumas vezes envolve a retirada desses linfonodos para detecção e prevenção de metástases. Além do inchaço, o linfedema traz desconforto e dor, daí as mulheres que passaram pelo tratamento evitam utilizar esse braço nas atividades do dia-a-dia.Especialistas da Universidade da Pennsilvania comprovaram que não há necessidade de preocupação e que as pacientes podem e devem ter uma vida completamente normal, inclusive fazendo musculação. A pesquisa comparou 2 grupos de mulheres submetidas a cirurgia para câncer de mama com retirada de linfonodos.

Um fez musculação por um ano com aumento progressivo da carga de peso no braço operado e outro não fez atividades desse tipo.

Após o período de treinamento as pacientes foram comparadas. O aparecimento do inchaço foi pouco freqüente e semelhante nos 2 grupos e o que treinou ainda ganhou os benefícios de se fazer exercícios regularmente.

Esse trabalho se soma a outro publicado em 2009 na revista New England Journal of Medicine com resultados semelhantes.

Portanto as mulheres que passaram por cirurgia para câncer de mama com retirada de linfonodos não precisam poupar o braço do lado operado e fazer musculação e carregar pesos normalmente no dia-a-dia, tudo isso com bom senso e orientação profissional.
O trabalho está publicado na edição dessa semana da revista Journal of American Medical Association e o artigo original está no blog do saúde em foco na página da CBN.

Evidências científicas haviam sido publicadas em 2009 com um trabalho publicado na revista New England Journal of Medicine.

Por tudo isso a musculação sempre foi evitada pelas pacientes no pós-tratamento.
A atividade física traz benefícios físicos e psíquicos comprovados na recuperação dessas pacientes.

A pesquisa publicada mostra que a musculação também pode fazer parte de rotina de atividades na academia.

Foram mais de 140 mulheres que haviam sido submetidas ao tratamento para câncer de mama.

Metade delas recebeu um ano de academia e entraram em um programa de treinamento com musculação orientada por professores orientados para o problema.

O programa envolvia duas sessões de treinamento por semana com musculação para todo o corpo, exercícios cardiovasculares e alongamento.

O único cuidado especial com as participantes era a utilização de uma malha compressiva feita sob medida para evitar o inchaço.

A circunferência do braços era medida a cada sessão de treinos. Após um ano de exercícios as participantes do grupo da academia tinham 5% menos problemas com inchaço e linfedema.

Os pesquisadores apontam para a necessidade de que os professores de educação física estejam preparados para atender as mulheres que precisaram se submeter ao tratamento para câncer.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

PARA QUE SERVEM OS HOMENS - Fabrício Carpinejar

Fazia tempo que não dava boas gargalhadas lendo um texto. Adoro as crônicas do Carpinejar. Para mim ele é simplesmente sensacional!!! Confiram!



Meu pai saiu de casa quando tinha sete anos. E entrei em pânico.

Atormentado de coração. Porque a mãe só reclamava que não havia mais ninguém em casa para matar baratas.

Não lamentou o fim do casamento de três décadas, a despedida brusca, e sim o término da proteção contra o esgoto.

Pensava que o pai era um inseticida. Logo contraí saudade de seus olhos brilhantes de naftalina.

Assumiria a tarefa masculina da residência. Algo muito precoce, recém havia me acostumado a usar calça comprida. O mesmo que sustentar a família antes de entrar para a escola.

O duelo prometia. Na minha infância, as baratas experimentaram uma fase transgênica, de helicóptero. Balofas, imensas, crespas e voadoras. Acho que encontravam comida com excessiva facilidade (não varríamos bem o chão?), a questão é que pareciam ratazanas escuras nas costas de morcegos. Saltavam de um lado para outro. Planavam longamente. Com suas antenas delirantes, representavam a televisão 29 polegadas da época.

Eu não podia confessar que sentia nojo. Na primeira vez que ouvi o grito da mãe, ela me entregou seu chinelo havaiana azul 36 e me lançou ao batismo: “Mata rápido!”. Não contei com preparação psicológica nem fiz estágio com formigas.

O animal estava escondido na máquina de lavar. Persegui sua sombra, respirando pela boca. Meus cílios também se mexiam como patas.

O negócio é que não bati o chinelo com firmeza no piso, arremessei longe e a barata desapareceu na favela dos cascos de refrigerante.

A mãe não escondeu a decepção. Fechamos a cozinha por um dia, almoçamos e jantamos fora, tudo minha culpa. Deixei de crescer três centímetros devido àquela manhã de fracasso.

Já adulto, mato baratas sem piedade. Lamento que não recuperei o atrasado, seria mais vistoso com 1m80cm.

Talvez tenha adquirido o respeito de minha mulher. Ela também esperneia e solta gritinhos. Não compreendo porque ela sempre sobe no colchão quando vê uma barata. Seu susto brinca de cama elástica. Vou lá e resolvo a pendência com rapidez. Virei um justiceiro implacável e de sangue frio. Esmago a baranga e limpo com papel higiênico.

Gostaria que Cínthya matasse baratas em nome das mulheres do mundo. Mas sei que não posso confiar em mulheres que matam baratas. Fiquei satisfeito quando ela pegou uma mosca com as mãos. E comprimiu os dedos com a pupila tremendamente malévola. Foi uma atitude ninja, de reflexo judoca.

Na verdade, aquilo me deu mais medo do que de minha mãe. Ela me humilhou, eu que mal conseguia apanhar mosquitos. Não pretendo medir minha altura de novo.

Publicado no jornal Zero Hora
Segundo Caderno, coluna quinzenal, p. 3, 06/12/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16541

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Poema aos amigos - Jorge Luis Borges

Não posso dar-te soluções
Para todos os problemas da vida,
Nem tenho resposta
Para as tuas dúvidas ou temores,
Mas posso ouvir-te
E compartilhar contigo.

Não posso mudar
O teu passado nem o teu futuro.
Mas quando necessitares de mim
Estarei junto a ti.


Não posso evitar que tropeces,
Somente posso oferecer-te a minha mão
Para que te sustentes e não caias.

As tuas alegrias
Os teus triunfos e os teus êxitos
Não são os meus,
Mas desfruto sinceramente
Quando te vejo feliz.

Não julgo as decisões
Que tomas na vida,
Limito-me a apoiar-te,
A estimular-te
E a ajudar-te sem que me peças.

Não posso traçar-te limites
Dentro dos quais deves atuar,
Mas sim, oferecer-te o espaço
Necessário para cresceres.

Não posso evitar o teu sofrimento
Quando alguma mágoa
Te parte o coração,
Mas posso chorar contigo
E recolher os pedaços
Para armá-los novamente.


Não posso decidir quem foste
Nem quem deverás ser,
Somente posso
Amar-te como és
E ser teu amigo.

Todos os dias, penso
Nos meus amigos e amigas,
Não estás acima,
Nem abaixo nem no meio,
Não encabeças
Nem concluís a lista.
Não és o número um
Nem o número final.

E tão pouco tenho
A pretensão de ser
O primeiro
O segundo
Ou o terceiro
Da tua lista.
Basta que me queiras como amigo
Dormir feliz.
Emanar vibrações de amor.
Saber que estamos aqui de passagem.
Melhorar as relações.
Aproveitar as oportunidades.
Escutar o coração.
Acreditar na vida.

Obrigado por seres meu amigo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Um cinturão - Graciliano Ramos

A violência contra a criança brasileira é histórica. Nesse conto de Graciliano - um dos mais tristes que conheço - fica explícito que bater nas crianças é um procedimento considerado comum pelos pais. Confiram!


As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu.
Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.

Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.

Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé do turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.

Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.

Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.

Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as consequências delas me acompanharam.
O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.

Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.

A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal. Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos – e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás de caixões, livre do martírio.

Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que gogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.

Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.

Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me num desespero.

O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.

Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.

Pareceu-me que a figura imponente minguava – e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.

Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.


(RAMOS, Graciliano. Um Cinturão. In: Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Org. MORICONI, Ítalo. Rio de Janeiro: OBJETIVA, 2000, p.144-146)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Balzac

Estou relendo a obra Eugenia Grandet, de Honoré de Balzac. É realmente sensacional a maneira profunda como o autor descreve as pessoas. É muito bom de lê-lo. O cara tem umas tiradas que são demais.!!!!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

DESEJOS...

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

Cecília Meireles

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Mensagem de Alexandre

Embora já tenha comunicado o meu afastamento do blog, não posso deixar de publicar aqui essa mensagem do meu amigo virtual Alexandre Ferrari. Ele é um doce de pessoa e muito gentil. Confiram!
Este post é para a Tânia, uma amiga virtual que vai se submeter a uma cirurgia por esses dias. Ainda não sei como ela está, mas estou por aqui torcendo para que tudo dê certo. Não é fácil não estar bem de saúde, mas ela é tão pósitiva que ainda assim consegue ser doce, atenciosa.
Um abraço bem apertado em vc. E o meu desejo de muita saúde. O desejo de uma recuperação rápida. E o desejo da sua volta ao mundo virtual. Um beijão.


Postado por Alexandre Ferrari às 21:27

Ausênica

AVISO
A partir de terça-feira - 16.11.2010 - o blog ficará sem atualização, pois irei me submeter a uma intervenção cirúrgica. Não sei quantos dias ficarei afastada do computador. Logo que puder, darei notícias.
Obrigada a todos os meus seguidores e também àqueles que têm me visitado.
Até breve!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Tá na hora da janta

Achei sensacional esse texto. O autor - Luiz Antonio Simas - faz uma análise muito boa do comportamento da grande imprensa e da elite no Brasil. Confiram!


O Brasil compreende e aceita Lula - e dá ao presidente inédita popularidade entre os homens do poder - porque Lula compreendeu e aceitou o Brasil. É simples assim.

Certos segmentos da elite e da grande imprensa, que tentam desqualificar Lula e o seu eleitorado, agem como as madames quatrocentonas paulistas que oferecem banquetes para duzentos talheres em suas mansões. Cheias de si, conhecedoras das regras de etiqueta dos grandes ágapes, as madames se horrorizam quando alguém esculhamba o ritual, inverte pratos e facas, altera a ordem dos copos e desarticula as pompas e circunstâncias da festa.

Toda liturgia pressupõe um jogo de poder. A imposição de regras de etiqueta serviu, ao longo da história, para delimitar terrenos, marcar territórios e colocar cada qual em seu devido lugar. Quem não respeita a liturgia, a regra, os chamados bons modos, não merece frequentar o clube dos bem nascidos e a mesa dos poderosos.

Desta forma o discurso da etiqueta serve, não raro, para segregar, erguer paredões, consolidar posições e inibir mudanças. Assim acontece - e de forma exacerbada - na esfera da política, reino repleto de todos os salamaleques cerimoniais que caracterizam as sociedades hierarquizadas.

O recado da liturgia é claro: os que não conhecem o cerimonial e não sabem se comportar não merecem frequentar a fidalguia dos salões. Somos, afinal de contas, o país que reproduziu trezentos anos de casa grande e senzala na arquitetura dos apartamentos com dependências de empregadas, os chamados quartinhos de fundos.

O que certa elite não perdoa em Lula é exatamente a dimensão simbólica de sua presidência - aquela que subverte a liturgia e, desta maneira, quebra a lógica de segregação que o exercício do cargo de mando geralmente impõe.

Lula é o batuque da senzala que abafa o bafafá da casa grande; é canto de torcida que invade os nobres balcões dos teatros de ópera; é a empregada doméstica que rasga o uniforme branco - em alvo contraste com o corpo preto - que escancara visualmente sua função de mucama da sinhá. Lula é, enfim, o homem comum que botou a faixa e subiu a rampa - território outrora destinado aos generais com seus galardões e aos bem nascidos principes das sociologias.

A imagem mais emblematica desse simbolismo foi a de Lula carregando um isopor cheio de cervejas em um dia de praia. Os jornalões estamparam nas primeiras páginas, com manchetes e charges que travestiam em humor o preconceito e o espanto, a figura do presidente da República agindo como homem comum. Não se espantariam, todavia, se um empregado carregasse a bebida do presidente, feito o negro de ganho que em antanhos carregava os pesos e pertences do senhor.

Os homens miúdos são necessários para preparar o jantar, arrumar talheres, manobrar os carros, limpar os banheiros, tirar a poeira e varrer os comodos das mansões. Chegam até mesmo a receber algumas gentilezas que mascaram a indiferença cordial dos poderosos. Que os miúdos fiquem longe, porém, do banquete de não sei quantos copos, garfos e facas de prata.

Os doutos poderosos não entendem Lula simplesmente porque nunca carregaram o isopor e ainda se esqueceram, trancafiados em decadentes palacetes, de olhar o céu e constatar que anoiteceu no Brasil (e como está bonita essa noite clara, de lua cheia e gente na rua).

Tá na hora da janta, a fome é tanta e a mesa é nossa.

Disponível em: http://hisbrasileiras.blogspot.com. Acesso em: 03.11.2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Charge do dia: vista curta

Esta charge está publicada no blog do Ivan Cabral. Muito boa! Atentem para a carinha do Serra e para a incredulidade do oftalmologista. É como se estivesse a pensar: "esse caso é grave mesmo."

Galinhas filosóficas - Nani


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Historinha bem humorada...

No dia 02 de Janeiro de 2011, um senhor idoso se aproximou do Palácio da Alvorada e, depois de atravessar a Praça dos Três Poderes, falou para o "Dragão da Independência" que montava guarda: "Por favor, eu gostaria de entrar e me entrevistar com o Presidente Serra."

O soldado olhou para o homem e disse: "Senhor, o Sr. Serra não é presidente e não mora aqui."

O homem disse: "Está bem." E se foi.

No dia seguinte, o mesmo homem idoso se aproximou do Palácio da Alvorada e falou com o mesmo Dragão: "Por favor, eu gostaria de entrar e me entrevistar com o Presidente Serra." O soldado novamente disse: "Senhor, como lhe falei ontem, o Sr Serra não é presidente e nem mora aqui." O homem agradeceu e novamente se foi.

Dia 04 de janeiro ele voltou e se aproximou do Palácio Alvorada e falou com o mesmo guarda: "Por favor, eu gostaria de entrar e me entrevistar com o Presidente Serra."
O soldado, compreensivelmente irritado, olhou para o homem e disse: "Senhor, este é o terceiro dia seguido que o Senhor vem aqui e pede para falar com o Sr. Serra. Eu já lhe disse que ele não é presidente, nem mora aqui. O Senhor não entendeu?"

O homem olhou para o soldado e disse: "Sim, eu compreendi perfeitamente, MAS EU ADORO OUVIR ISSO!!!"

O soldado, em posição de sentido, prestou uma vigorosa continência e disse: "Até amanhã, Senhor!!!"


Postado por Anna Christina Bentes
Disponível em: http://annabentes.blogspot.com . Acesso em: 27.10.2010

Galinhas filosóficas


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Almoço no Guinza

Hoje(22.10) fui almoçar no restaurante Guinza do Midwmall com duas amigas do tempo da graduação de Letras. Foi muito bom, pois colocamos as conversas em dia. Elas falavam dos filhos e futuras noras e eu dos meus sobrinhos e sobrinhas. Além disso, falamos de amenidades, da cirurgia que irei fazer, de viagens etc,etc. Fiquei muito tocada com a solidariedade delas. Nossa, como sou privilegiada de tê-las como amigas! Tão generosas! Como não levei a máquina fotográfica, postei essa foto do restarante. É lindo e super agradável! Recomendo.





Disponível em http://www.desaboya.com.br/. Acesso em: 22.10.2010

Charge - Ivan Cabral

Esta charge é do Ivan Cabral e foi publicada no seu blog no dia 17.10.2010. Achei simplesmente sensacional!!! Ele é muito bom!





Disponível em: http://www.ivancabral.com/ Acesso em: 22.10.2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Palavras da moda - Sírio Possenti

Acompanho sempre as análises do Prof. Sírio Possenti em sua coluna no portal Terra. O texto de hoje - 21.10 - é muito interessante. Atentem para a pequena nota!!!!


Palavras entram no mercado lingüístico por razões diversas. Dou dois exemplos.


Nas últimas semanas, especialmente a propósito da situação dos mineiros chilenos que finalmente foram resgatados, falou-se muito em "socorrista", que dicionários registram, mas cujo emprego era absolutamente raro (eu nunca tinha ouvido). No dia 16/10/2010, ouvi também "resgatista". O jornal falava de um desmoronamento em mina chinesa. Por algum tempo, desastres assim estarão na moda, acho. Como alguns bispos e pastores que logo desparecerão da mídia.

O Houaiss registra "socorrista", mas não "resgatista". Mas é fácil ver que se trata da aplicação da mesma regra derivacional: acrescenta-se o sufixo -ista a "socorro" ou a "resgate". Em ambos os casos, a vogal temática "cai" (-o em "socorro", -e em "resgate").


Procurei -ista no mesmo dicionário, já que uma de suas características é fornecer diversas informações sobre os sufixos muito produtivos. Manda ver -ismo, o que equivale a dizer que palavras em -ista têm um sentido associado à palavra correspondente em -ismo (getulismo, getulista; socorrismo, socorrista). O dicionário fornece diversos sentidos de -ismo e, claro, de -ista: em getulista, -ista significa adepto, simpatizante, seguidor; em socorrista, o agente (do socorro).


Outras palavras entram no mercado por razões diferentes. Não acompanham acontecimentos midiáticos, sensacionais. Trata-se ainda de acontecimentos, mas de outra natureza. Um bom exemplo é a palavra "empregabilidade".


Um dos aspectos que chamam atenção é que sua "derivação" é regular: destaquem-se as regras que foram produtivas diacronicamente (mudança de v > b e de e > i): empregável > empregabilidade (como em amável > amabilidade e centenas de outras palavras) e que continuam produtivas sincronicamente.

Outros aspectos importantes são sua circulação e seu sentido ideológico. Mais ou menos em meados nos anos 90, a palavra, então de uso raro, passou a ser freqüente em jornais, na pena ou na boca dos próprios jornalistas (que repetiam um discurso que começava a sem impor) ou na de autoridades e especialistas em questões de trabalho. Mesmo uma análise simples mostra que houve uma mudança política de foco: em vez de falar de "emprego" / "desemprego", passou-se a falar de "empregabilidade" / "não empregabilidade" (que eu saiba, ninguém falou em "desempregabilidade"...).


O que explicava esta mudança, e a consequente "popularização" da palavra? Com novas tecnologias nas fábricas (robôs) e em outros estabelecimentos (caixas automáticos, computadores) e com o advento de novas formas de trabalho (mais serviços do que indústrias), passou-se a exigir maior capacitação individual do trabalhador.


Ou seja, para certa posição política / ideológica, a questão deixava de ser se as fábricas empregavam mais ou menos trabalhadores e passou a ser se os trabalhadores tinham ou não qualificação para ocupar os "novos" postos de trabalho. Ou seja, a questão passou a ser se eles eram empregáveis, se tinham esse predicado. Em épocas de recessão, é fácil perceber que isso significava também "culpar" o cidadão em vez de culpar o sistema "produtivo", como se fazia antes, pelo desemprego.

Chama atenção o fato de que houve um enorme crescimento de circulação da palavra (circulação que claramente diminuiu nos últimos anos). Ocupação um espaço especial nos debates ideológicos, que também não ocupa mais. De certa forma, a palavra condensou um conjunto de discursos e de práticas de uma época: sua análise em contexto histórico explica que tenha havido tantos cursos de "capacitação", por exemplo, especialmente de desempregados, para que eles se tornassem capazes de disputar outros empregos ou de organizar seus próprios negócios.
***
FHC, em discurso recente: "Lula fez coisas boas, que reconheço. Agiu bem na crise financeira. Para que, meu Deus, então ser tão mesquinho? É isso que eu quero perguntar para ele. Por que isso, rapaz?".
Lembrei o evento em que o deputado Joe Wilson, que gritou "you lie, boy", enquanto Obama discursava.
Grave não é discordar ou chamar não importa quem para uma conversa. Sintomáticas são as expressões: "boy" lá, "rapaz", aqui. Coisas da Casa-grande aqui, coisa de branco lá.

Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/. Acesso em: 21.10.2010

Veríssimo


Li,agora, no Zero Hora, essa crônica do Fabrício Carpinejar. Adorei!!!


Qual o maior cronista vivo? Luis Fernando Verissimo. Até no mundo dos mortos, ele se daria bem. Acredito que arrebataria o vice-campeonato, ficando somente atrás de Rubem Braga. A vantagem do capixaba seria simbólica, talvez pelo saldo de gols. Os dois foram fundamentais na definição do gênero no Brasil. O primeiro construiu toda a estrutura da crônica, diferenciando o texto leve e lírico do conto; o segundo confundiu tudo, aproximando a crônica novamente do conto com o uso perfeito dos diálogos.

E de quem sou interino? Luis Fernando Verissimo. Ao receber cumprimentos pela substituição, sempre penso que são pêsames. Minha culpa é explicar:

– Logo Luis Fernando volta, meu trabalho é aumentar a saudade dele.


Vejo que o jornal Zero Hora se dispõe a destruir minha carreira. Não há como sobreviver a sua interinidade. Mesmo que tocasse clarinete nas horas vagas e criasse um Jazz 7.

Ainda por cima, sou uma matraca, correndo graves riscos de dizer bobagem. Verissimo é o contrário: contido. Suas palestras são mímicas, dispensam a tradução para Libras. Os amigos falam por ele e ele retribui escrevendo pelos amigos. Um negócio perfeito.

Emudeci nos momentos em que abracei o autor. Permaneço quieto, e ele, quieto. É possível ouvir nossa respiração soletrada. Um repete o outro. Tudo bem? Tudo bem. Céu azul? Céu azul. Ele não sofre com o desespero. Não é problema de falta de assunto, é temperamento. Encontrar-se com Verissimo é entrar no elevador: ninguém solta um pio. É ter a solidão reembolsada com juros.

Ansioso, faço loucuras para romper o nervosismo, inclusive confessar os pecados. Como ele é célebre pela sua timidez, qualquer timidez em sua frente é uma imitação. Para ele, aquilo é rotina; para mim, é mal-estar. Praticamente impossível ser inteligente ao lado de um homem quieto.

Como não conseguirei vencê-lo na escrita, decidi superá-lo no silêncio. Precisava de muito treino. Experimentei dois dias longe de minha voz. Os filhos não compreendiam, sondavam que virei Hare Krishna. Não atendi telefone, e almocei e jantei calado.

Quando calculei que estava pronto, fui ao combate. Empreguei golpes baixos como piscar e pigarrear. Quase bati palmas perto de seus cílios. Ele se conservava imutável. Não mexia os braços e os lábios.

Uma hora e meia de completa meditação, e desisti, perguntei se tinha um lenço para secar o suor. Ele me alcançou do bolso de trás da calça. E, sem piedade, o cretino não proferiu nenhuma palavra de consolo. Não posso brincar de estátua com quem já é uma.


CARPINEJAR,Fabrício. In: Jornal Zero Hora, 21.10.2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Encerramento da disciplina Tópicos Linguísticos - Curso Pedagogia

Ontem(19.10) foi o encerramento da disciplina Tópicos Linguísticos, no curso de Pedagogia. A turma também aproveitou para comemorar o meu aniversário. Fiquei muito emocionada com a demonstração de carinho deles para comigo.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Galinhas filosóficas

Muitooooooo divertida essa tirinha do Nani. Adorei!!!



domingo, 17 de outubro de 2010

A TORTURA DA CARNE (Parte 1)

Publicarei, aos domingos, partes desse conto de Leon Tolstói. Acompanhem!
Leon Tolstói


Eugênio Irtenieff tinha razões para aspirar a uma carreira brilhante. Para tal nada lhe faltava, a sua educação fora muito cuidada; terminara com brilho os estudos na Faculdade de Direito de S. Petersburgo e, por intermédio do pai, falecido havia pouco, conseguira as melhores relações na alta sociedade. Basta dizer-se que entrara para o Ministério pela mão do próprio Ministro. Possuía também uma avultada fortuna, embora esta já estivesse comprometida. O pai vivera no estrangeiro e em S. Petersburgo e dava a cada um dos seus filhos, Eugênio e André, uma pensão anual de seis mil rublos, e ele e a mulher de nada se privavam, gastavam à larga. No verão, passava dois meses no campo, mas não administrava diretamente as suas propriedades, confiando tal encargo a um encarregado que por sua vez, embora este fosse pessoa da sua inteira confiança, deixava andar tudo ao Deus dará.

Por morte do pai, quando os dois irmãos resolveram liquidar a herança, apareceram tantas dívidas que o advogado aconselhou-os a ficarem apenas com uma propriedade da avó, que fora avaliada em cem mil rublos, e desistirem do restante. Mas um vizinho da herdade, igualmente proprietário, que tivera negócios com o velho Irtenieff, veio a S. Petersburgo propositadamente para apresentar uma letra aceite por este - e fez-lhes saber que, apesar das grandes dívidas, poderiam chegar a acordo com ele e ainda refariam grande parte da fortuna. Para tal, bastava que vendessem a madeira, alguns bocados de terreno bravio e conservassem o melhor, isto é, a propriedade de Semionovskoié, uma verdadeira mina de ouro, com as suas quatro mil geiras de terra, duzentas das quais de belos pastos, e a refinaria. Afirmou ainda que, para tal se arranjar, era indispensável que uma pessoa enérgica se entregasse de corpo e alma a essa tarefa instalando-se no campo para administrar a herdade inteligente e economizante.

O pai morrera na altura da quaresma e na primavera, Eugênio, foi à propriedade; depois duma inspeção minuciosa, resolveu pedir a sua demissão de oficial do exército e fixar lá residência com a mãe, a fim de dar execução às sugestões do vizinho. Mas antes disso, contratou o seguinte com o irmão: pagar-lhe anualmente quatro mil rublos, ou entregar-lhe duma vez só oitenta mil, com o que ficariam saldadas as suas contas.

Eugênio, logo que se instalou com a mãe na velha casa, atirou-se com coragem e prudência à revalorização das terras. Pensa-se, em geral, que os velhos são conservadores impenitentes e que, pelo contrário, os novos tendem mais para as modificações. Mas não é bem assim! Às vezes, mais
conservadores são os novos que desejam viver e não têm tempo de pensar na maneira como devem fazê-lo, por isso se entregam à vida tal como ela é.

Minicontos vencedores

Achei sensacional os três minicontos vencedores do concurso, no twitter, promovido pela Academia Brasileira de Letras. Confiram!

1º lugar
"Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida".
Bibiana Silveira Da Pieve, Rio de Janeiro - RJ

2º lugar
"Joguei. Perdi outra vez! Joguei e perdi por meses, mas posso apostar: os dados é que estavam viciados. Somente eles, não eu".
Carla Ceres Oliveira Capeleti, Piracicaba - SP

3º lugar
"Não sabia ao certo onde tecer sua teia. Escolheu um cantinho de parede da cozinha. Acertou na mosca".
Eryck Gustvo silva de Magalhães, Guaratinguetá - SP

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Acreditar e Realizar em Educação

Em homenagem aos meus alunos-professores, publico esse vídeo. Achei-o muito emocionante. A música dispensa comentários.Confiram!

Dia do Professor - 15.10.2010

Em homenagem ao dia do Professor, a revista Nova Escola disponibilizou esse serviço. Achei muito legal, pois tenho mesmo muito orgulho da profissão que escolhi. Gosto muito do ofício que exerço e sempre procuro honrá-lo. E o modo de fazê-lo é com dedicação, compromisso, respeito e seriedade. Penso que todo professor deve tomar para si a responsabilidade para com o seu trabalho e rejeitar a tutela do Estado que insiste em tratá-lo como um incapaz.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O argumento de Marilena Chauí para atrair o voto verde

É muito interesante esse texto da Profª Marilena Chauí sobre a questão ambiental num possível governo de Serra. Vale a pena refletir sobre as ponderações da filósofa. Confiram!

Para a professora de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), apoiar José Serra significa a agroindústria ligada ao latifúndio e, portanto, o ataque ao meio ambiente e também à possibilidade de reformar a situação da terra no Brasil. "É preciso conversar com os ambientalistas", defendeu Marilena Chauí, e "mostrar que o mapa da votação indica que José Serra foi vitorioso em todas as regiões da agroindústria, do latifúndio que ataca o meio ambiente". "Não é pouco que isso se refira à estrutura da terra criada desde a colonização, que isso seja ligado aos obstáculos contra a Reforma Agrária e que se refira também ao ataque contra o meio ambiente", adverte.

Redação - Carta Maior
Data: 12/10/2010

Em ato realizado na última sexta-feira na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, a professora de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Marilena Chauí, apresentou um argumento para a campanha de Dilma Rousseff atrair, neste segundo turno da eleição, os votos de ambientalistas que foram para Marina Silva no primeiro turno: "É preciso mostrar aos ambientalistas que José Serra foi vitorioso em todas as regiões da agroindústria, do latifúndio que ataca o meio ambiente", defendeu. Reproduzimos a seguir a fala de Marilena Chauí sobre essa questão (ver vídeo):

"O mapa da votação mostra que José Serra foi vitorioso em todas as regiões da agroindústria. Portanto, foi vitorioso nas regiões que, no meu tempo, quando era jovem, chamávamos de latifúndio. Ele foi vitorioso no latifúndio e no latifúndio que ataca o meio ambiente e que impede a Reforma Agrária".

"Não é pouco. Não é pouco que isso se refira à estrutura da terra criada desde a colonização, que isso seja ligado aos obstáculos contra a Reforma Agrária que se refira também ao ataque contra o meio ambiente".

"Então, é preciso conversar com os ambientalistas, pelos quais tenho o maior respeito. Ao chegar na minha idade, a questão principal é o futuro das novas gerações. Eu penso nos jovens que estão aqui. Eu penso nos meus netos. É preciso lembrar aos ambientalistas que apoiar José Serra significa apoiar a agroindústria e, portanto, o ataque ao meio ambiente e à possibilidade de reformar a situação da terra no Brasil".

Disponível em: http://www.cartamaior.com.br. Acesso em: 12.10.2010

Elias Canetti



Para fazer um contraponto com o texto de Graciliano, apresento esse belíssimo texto de Elias Canetti, justamente para possibilitar uma reflexão em torno da influência paterna na vida desses dos dois grandes escritores e por caminhos completamente opostos. O primeiro foca bem a alfabetização. Já o segundo se concentra no letramento. Num temos a brutalidade; no outro temos a douçura. São os tipos humanos.


"[...]
Mas as belas conversas daquele tempo eram as que eu mantive com meu pai. Pela manhã, antes de ir para o escritório, ele vinha ao quarto das crianças e tinha palavras adequadas a cada um de nós. Ele era inteligente e divertido, e sempre inventava novas brincadeiras. Essa curta aparição era feita antes do café da manhã, que ele tomava na sala de refeições com a minha mãe, quando ainda não havia lido o jornal. Ao anoitecer, voltava com presentes para cada um de nós, e não houve um único dia em que ele voltou para casa sem nos trazer algo.
Então ficava mais tempo e fazia ginástica conosco. Do que ele mais gostava era nos sustentar, os três, de pé sobre seu braço estendido. Ele segurava os dois pequenos, mas tinha de aprender a me equilibrar, e, embora o amasse mais do que qualquer outra pessoa, sempre tinha um pouco de medo dessa parte do exercício.

Alguns meses depois do meu ingresso na escola, aconteceu algo solene e excitante que determinou toda a minha vida futura. Meu pai me trouxe um livro. Levou-me para um quarto dos fundos, onde as crianças costumavam dormir, e o explicou para mim. Tratava-se de The Arabian Nigts, As mil e Uma Noites, numa edição para crianças. Na capa havia uma ilustração colorida, creio que de Aladim com a lâmpada maravilhosa. Falou-me, de forma animadora e séria, de como era lindo ler. Leu-me uma das histórias; tão bela como esta seriam também as outras histórias do livro. Agora eu deveria tentar lê-las, e à noite eu lhe contaria o que havia lido. Quando eu acabasse de ler este livro, ele me traria outro. Não precisou dizê-lo duas vezes, e, embora na escola começasse a aprender a ler, logo me atirei sobre o maravilhoso livro, e todas as noites tinha algo para contar. Ele cumpriu sua promessa, sempre havia um novo livro e não tive que interromper minha leitura um dia sequer.

Era uma série para crianças e todos os livros tinham o mesmo formato; se diferenciavam pela ilustração colorida na capa. As letras tinham o mesmo tamanho em todos os volumes e era como se continuasse a ler sempre o mesmo livro. Como série, nunca houve outra igual. Lembro-me de todos os títulos. Depois das Mil e Uma Noites vieram os Contos de Grimm, Robinson Crusoé, As Viagens de Gulliver, Contos de Shakespeare, Dom Quixote, Dante, Gulherme Tell. Pergunto-me, agora, como foi possível adaptar Dante para crianças. Em todos os volumes havia diversas figuras coloridas, mas eu não gostava delas, pois as histórias me pareciam muito mais bonitas; nem sei mesmo se hoje eu reconheceria as figuras. Seria fácil demonstrar que quase tudo aquilo a que minha formação estava nos livros que, por amor ao meu pai, li aos sete anos de idade. De todos os personagens que depois me acompanharam para sempre, só faltava Ulisses.

Comentava com meu pai cada um dos livros que lia. Às vezes ficava tão excitado, que ele tinha de me acalmar. Mas nunca me disse, à maneira dos adultos que os contos eram mentiras; sou-lhe especialmente grato por isso; talvez ainda hoje eu os considere verdadeiros. Logo percebi que Robinson Crusoé era diferente de Simbad o Marujo, mas nunca me ocorreu que uma dessas histórias pudesse ser considerada inferior à outra. Sobre o inferno de Dante, aliás, tive pesadelos. Quando ouvi minha mãe lhe dizer: “Jacques, você não deveria ter-lhe dado este, é cedo demais para ele”, receei que ele deixasse de me trazer livros, e aprendi a manter meus sonhos em segredo. Creio também – mas não posso ter certeza –, que minha mãe estabeleceu uma relação entre minhas freqüentes conversas com as figuras do papel de parede e os livros. Foi a época em que eu tive menos afeto por minha mãe. Fui suficientemente esperto para farejar o perigo, e talvez não tivesse abandonado tão pronta e fingidamente as minhas conversas com as figuras do papel de parede, se os livros e as conversas com meu pai sobre eles não se tivessem tornado a coisa mais importante do mundo, para mim.

Mas ele, de modo algum, se deixou influenciar, e após Dante tentou Guilherme Tell. Foi nessa ocasião que, pela primeira vez, ouvi a palavra “liberdade”. Ele fez algum comentário a respeito, que esqueci. Mas acrescentou que a razão pela qual havíamos vindo para a Inglaterra era porque aqui seríamos livres. Eu sabia o quanto ele amava a Inglaterra, enquanto o coração de minha mãe estava em Viena. Meu pai se esforçava por aperfeiçoar seu inglês, e uma vez por semana uma professora vinha lhe dar aulas em casa. Eu notava que suas frases em inglês lhe saíam diferentes das frases em alemão, a língua que lhe era fluente desde a juventude e que ele costumava falar com minha mãe. Ouvia-o dizer e repetir frases soltas. Ele as pronunciava devagar, como se fossem algo belo que lhe causava prazer e que ele repetia várias vezes. Conosco, as crianças, ele agora só falava inglês; o ladino, que até então fora a minha língua, ficou relegado a segundo plano e eu só o ouvia de outras pessoas, especialmente parentes mais idosos.

Os comentários sobre os livros que eu lia, ele só queria ouvi-los em inglês. Creio que, com essa leitura apaixonada, meu progresso foi muito rápido. Ficava contente quando eu fazia meu relatório com fluência. Mas o que ele dizia tinha importância especial, pois ele o ponderava para não errar, falava quase como se estivesse recitando. Tenho na lembrança aquelas horas como algo solene, diferente de quando ele brincava conosco no quarto das crianças, sempre inventando novas brincadeiras.

O último livro que ele me entregou pessoalmente foi sobre Napoleão. Escrito do ponto de vista inglês. Napoleão aparecia como o tirano malvado que queria dominar todos os países, especialmente a Inglaterra. Era o livro que eu estava lendo quando meu pai morreu. Minha antipatia por Napoleão desde então se manteve inabalável. Eu já havia começado a lhe fazer o relato do livro, mas ainda não estava muito adiantado. Ele o dera logo após o Guilherme Tell e, depois da conversa sobre a liberdade, era uma pequena experiência que ele fazia. Logo que comecei a falar, muito excitado, sobre Napoleão, ele disse: ”É melhor que você espere, ainda é cedo. Primeiro você terá que ler mais. Tudo ficará bem diferente”. Tenho certeza de que Napoleão, então, ainda não era imperador. Talvez fosse uma prova, talvez ele quisesse verificar se eu seria capaz de resistir à magnificência imperial. Terminei de lê-lo após a sua morte, e tornei a lê-lo inúmeras vezes, assim como a todos os livros que ele me deu. Até então eu quase não sentira o efeito do poder. Minha primeira impressão do poder deriva desse livro, e jamais pude ouvir o nome de Napoleão sem ligá-lo à morte súbita de meu pai. De todas as vítimas de Napoleão, para mim a maior e mais terrível foi meu pai".



CANETTI, Elias. Papel de parede e livros. Passeio à margem do Mersey. In. _____. A Língua Absolvida: história de uma juventude. São Paulo: Cia. das Letras, 2005, p. 49-52

LEITURA

Graciliano Ramos


Hoje é o dia da leitura. Sendo assim, resolvi publicar esse texto de Graciliano Ramos. Para mim é um dos mais emocionantes que li até hoje.


"Achava-me empoleirado no balcão, abrindo caixas e pacotes, examinando miudezas da prateleira. Meu pai, de bom humor, apontava-me objetos singulares e explicava o préstimo deles.

Demorei a atenção nuns cadernos de capa enfeitada por três faixas verticais, borrões, nódoas cobertas de riscos semelhantes aos dos jornais e livros. Tive a idéia infeliz de abrir um desses folhetos, percorri as páginas amarelas, de papel ordinário. Meu pai tentou avivar-me a curiosidade valorizando com energia as linhas mal impressas, falhadas, antipáticas. Afirmou que as pessoas familiarizadas com elas dispunham de armas terríveis. Isto me pareceu absurdo: os traços insignificantes não tinham feição perigosa de armas. Ouvi os louvores incrédulos.

Aí, meu pai me perguntou se eu não desejava inteirar-me daquelas maravilhas, tornar-me um sujeito sabido como Padre João Inácio e o advogado Bento Américo. Respondi que não. Padre João Inácio me fazia medo, e o advogado Bento Américo, notável na opinião do júri, residia longe da vila e não me interessava. Meu pai insistiu em considerar esses dois homens como padrões e relacionou-os com as cartilhas da prateleira. Largou pela segunda vez a interrogação pérfida. Não me sentia propenso a adivinhar os sinais pretos do papel amarelo?

Foi assim que me exprimiu o Tentador, humanizado, naquela manhã funesta. Em geral, não indagavam se qualquer coisa era do meu agrado: havia obrigações, e tinha de submeter-me. A liberdade que me ofereciam de repente, o direito de opinar, insinuou-me vaga desconfiança. Que estaria para acontecer?

Mas a pergunta risonha levou-me a adotar procedimento oposto à minha tendência. Receei mostrar-me descortês e obtuso, recair na sujeição habitual. Deixei-me persuadir, sem nenhum entusiasmo, esperando que os garranchos do papel me dessem as qualidades necessárias para livrar-me de pequenos deveres e pequenos castigos. Decidi-me.

E a aprendizagem começou ali mesmo, com a indicação de cinco letras já conhecidas de nome, as que a moça, anos antes, na escola rural, balbuciava junto ao mestre barbado. Admirei-me. Esquisito aparecerem, logo no princípio do caderno, sílabas, pronunciadas em lugar distante, por pessoa estranha. Não haverá engano? Meu pai asseverou que as letras eram batizadas daquele jeito.

No dia seguinte surgiram outras, depois outras – e iniciou-se a escravidão imposta ardilosamente. Condenaram-me à tarefa odiosa, e como não me era possível realizá-la convenientemente, as horas se dobravam, todo o tempo se consumia nela. Agora eu não tocava nos pacotes de ferragens e miudezas, não me absorvia nas estampas das peças de chita: ficava sentado num caixão, sem pensamento, a carta sobre os joelhos.

Meu pai não tinha vocação para o ensino, mas quis meter-me o alfabeto na cabeça. Resisti, ele teimou – e o resultado foi um desastre. Cedo revelou impaciência e assustou-me. Atirava rápido meia dúzia de letras, ia jogar solo. À tarde pegava um côvado, levava-me para a sala de visitas – e a lição era tempestuosa. Se não visse o côvado, eu ainda poderia dizer qualquer coisa. Vendo-o, calava-me. Um pedaço de madeira, negro, pesado, da largura de quatro dedos.

Minha mãe e minha irmã natural me protegeram: arredaram-me da loja e, na prensa do copiar, forneceram-me as noções indispensáveis. Arrastava-me, desanimado. O folheto se puía e esfarelava, embebia-se de suor, e eu o esfregava para abreviar o extermínio.

Isso de nada servia. Chegava outro folheto – e as linhas gordas e safadas, os três borrões verticais, davam-me engulhos. Que fazer? A lembrança do Côvado me arregalava os olhos. Mas ia-me pouco a pouco entorpecendo, a cabeça inclinava-se, os braços esmoreciam – e, entre bocejos e cochilos, gemia a cantiga fastidiosa que Mocinha sussurrava junto a mim. Queria agitar-me e despertar. O sono era forte, enjoo enorme tapava-me os ouvidos, prendia a fala. E as coisas em redor mergulhavam na escuridão, as ideias se imobilizavam. De fato eu compreendia, ronceiro, as histórias de Trancoso. Eram fáceis. O que me obrigavam a decorar parecia-me insensato.

Enfim consegui familiarizar-me com as letras quase todas. Aí me exibiram outras vinte e cinco, diferentes das primeiras e com os mesmos nomes delas. Atordoamento, preguiça, desespero, vontade de acabar-me. Veio o terceiro alfabeto, veio o quarto, e a confusão se estabeleceu, um horror de quiproquós. Quatro sinais com uma só denominação. Se me habituassem às maiúsculas, deixando as minúsculas para mais tarde, talvez não me embrutecesse. Jogaram-me simultaneamente maldades grandes e pequenas, impressas e manuscritas. Um inferno. Resignei-me – e venci as malvadas. Duas porém, se defenderam: as miseráveis dentais que ainda hoje me causam dissabores quando escrevo.

Sozinho não me embaraçava, mas na presença de meu pai emudecia. Ele endureceu algumas semanas, antes de concluir que não valia a pena tentar esclarecer-me. Uma vez por dia o grito severo me chamava à lição. Levantava-me, com um baque por dentro, dirigia-me à sala gelado. E emburrava: a língua fugia dos dentes, engrolava ruídos confusos. Livrara-me do aperto crismando as consoantes difíceis: o T era um boi, o D uma peruinha. Meu pai rira da inovação, mas retomara depressa a exigência e a gravidade. Impossível contentá-lo. E o côvado me batia nas mãos. Ao avizinhar-me dos pontos perigosos, tinha o coração desarranjado num desmaio, a garganta seca, a vista escura, e no burburinho que me enchia os ouvidos a reclamação áspera avultava. Se as duas letras estivessem juntas, o martírio se reduziria, pois, libertando-me da primeira, a segunda acudia facilmente. Distanciavam-se, com certeza havia colocação um desígnio perverso – e os meus tormentos se duplicavam.

As pobres mãos inchavam, as palmas vermelhas, arroxeadas, os dedos grossos mal se movendo. Latejavam, como se funcionassem relógios dentro delas. Era preciso erguê-las. Finda a tortura, sentava-me num banco da sala de jantar, estirava os braços em cima da mesa, procurando esquecer as palpitações dolorosas. Os sapos cantavam no açude da Penha; o descaroçador rangia no Cavalo-Morto; D. Conceição, além do beco, se esganiçava chamando as filhas. Estavam ali perto, no alpendre e no corredor, brincando com minhas irmãs, e eu não as enxergava. Os meus olhos molhados percebiam a custo o portão do quintal. As mãos descansavam na tábua, imóveis. Julgo que estive meio louco. E amparei-me ansioso às figurinhas de sonho que me atenuavam a solidão. O mundo feito caixa de brinquedos, os homens reduzidos ao tamanho de um polegar de criança.

Muitas infelicidades me haviam perseguido. Mas vinham de chofre, dissipavam-se. Às vezes se multiplicavam. Depois, longos períodos de repouso. Em momentos de otimismo supus que estivessem definitivamente acabadas.

Agora não alcançava esse engano. As três manchas verticais, úmidas de lágrimas, estiravam-se junto à mão doída, as letras renitentes iriam afligir-me dia e noite, sempre. As réstias que passeavam no tijolo e subiam a parede marcavam a aproximação do suplício. Dentro de algumas horas, de alguns minutos a cena terrível se reproduziria: berros, cólera imensa a envolver-me, aniquilar-me, destruir os últimos vestígios de consciência, e o pedaço de madeira a martelar a carne machucada.

Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza por haver gerado um maluco e deixou-me. Respirei, meti-me na soletração, guiado por Mocinha. E as duas letras amansaram. Gaguejei sílabas um mês. No fim da carta elas se reuniam, formavam sentenças graves, arrevesadas, que atordoavam. Certamente meu pai usara um horrível embuste naquela maldita manhã, inculcando-me a excelência do papel impresso. Eu não lia direito, mas, arfando penosamente, conseguia mastigar os conceitos sisudos: “ A preguiça é chave da pobreza – Quem não houve conselhos raras vezes acerta – Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.”

Esse Terteão para mim era um homem, e não pude saber que fazia ele na página final da carta. As outras folhas se desprendiam, restavam-me as linhas em negrita, resumo da ciência anunciada por meu pai.

- Mocinha, quem é Terteão?

Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão fosse homem. Talvez fosse. “ Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém”.

- Mocinha, que quer dizer isso?

Mocinha confessou honestamente que não conhecia Terteão. E eu fiquei triste, remoendo a promessa de meu pai, aguardando novas decepções".


RAMOS, Graciliano. Leitura. In: Infância. São Paulo: Record, 1982, p. 104-109.

"Serra responde à acusão de Dilma com um 'trololó"

Publico aqui esse texto do Josias para que vejam um fato interessante: até quem não apoia Dilma discute a postura dissimulada do Serra. Será que os eleitores "qualificados" dele notou isso?



A realidade da campanha eleitoral por vezes confere ao Brasil uma aparência de país irreal –espécie de romance de Cabral, com prefácio de Caminha.

José Serra, um dos protagonistas, esteve em Goiânia nesta segunda (11). Carregava atrás de si um par de dúvidas.

Ambiguidades resultantes de provocações feitas na véspera por Dilma Rousseff, a outra personagem do enredo sucessório.

No debate da TV Bandeirantes, Dilma levou aos holofotes dois nomes: Mônica Serra e Paulo Vieira de Souza.

Sobre a primeira, declarou: “Sua esposa, Mônica Serra, disse: ‘A Dilma é a favor da morte de criancinhas’. Acho gravíssima a fala da sua senhora”.

Quanto ao outro, Dilma afirmou: “Você deveria responder sobre Paulo Vieira de Souza, seu assessor, que fugiu com R$ 4 milhões de sua campanha”.

Em ambos os casos, Serra fingiu-se de morto no debate. Não se animou nem mesmo a sair em defesa de sua mulher.

Pois bem. Na passagem pela capital de Goiás, Serra viu-se compelido a dizer meia dúzia de palavras sobre o embate da Bandeirantes.

Declarou-se surpreso com a agressividade de Dilma. Com atraso, reportou-se à menção feita por sua rival a Mônica Serra:

"Ataque à família não é bom na campanha. Campanha é para discutir propostas, comparar candidatos, o que eles fizeram, o que vão fazer".

Absteve-se de esclarecer o teor da "gravíssima fala da sua senhora". Coisa pronunciada no mês passado, num corpo-a-corpo em Nova Iguaçu (RJ). Uma pena.

Tão grave quanto o “ataque à família” é a retórica da “morte de criancinhas”. A mulher de Serra, por ilustrada, decerto não ignora o significado de uma apelação.

Quanto a Paulo Vieira de Souza, um ex-gestor de obras do governo de São Paulo conhecido como Paulo Preto, Serra disse o seguinte:

"Eu não sei quem é o Paulo Preto. Nunca ouvi falar. Ele foi um factóide criado para que vocês [repórteres] fiquem perguntando".

Curioso, muito curioso, curiosíssimo. Serra empregou o mesmo vocábulo que Dilma usara ao comentar pela primeira vez o ‘Erenicegate’: “Factóide”.

É improvável que Serra desconheça Paulo Preto. Até abril deste ano, ele ocupou um posto estratégico do governo de São Paulo: diretor de Engenharia da Dersa.

Na gestão do governador Serra, o homem que o candidato Serra diz ignorar cuidava das grandes obras rodoviárias do Estado. Entre elas o Rodoanel.

Ex-chefe da Casa Civil de Serra, Aloysio Nunes Ferreira, agora senador eleito por São Paulo, mantém com Paulo Preto relações de amizade.

Ao tratar como “factóide” o sumiço de R$ 4 milhões supostamente coletados para nutrir as arcas de sua campanha, Serra desrespeita o eleitor.

Se verdadeiro, o episódio mereceria do candidato ao menos uma declaração protocolar em favor da investigação.

Se inverídica, a acusação de Dilma, recolhida de notícias penduradas nas manchetes, justificaria uma reação indignada.

O silêncio de Serra autoriza a rival petista a mimetizar a pergunta que o tucanato fazia em relação ao R$ 1,7 milhão do dossiê dos aloprados petistas de 2006.

Os grã-tucanos gostavam de inquirir: “De onde veio o dinheiro?”. O petismo está liberado para indagar: “Para onde foi a grana?”
[...]
No Brasil irreal –aquele país do romance de Cabral, prefaciado por Caminha— a fé constrói qualquer coisa.

No país cuja realidade é tinada pela dúvida, exige-se algo mais dos pretendentes à cadeira de presidente da República.

Para utilizar uma gíria ao gosto de Serra, não fica bem para um candidato contrapor a uma grave acusação da adversária uma resposta alicerçada em mero trololó.

Disponível em: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2010-10-01_2010-10. Acesso em 12.10.2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dilma e a fé cristã


FREI BETTO

Achei interessante esse texto do Frei Betto e decidi publicá-lo aqui para que sirva de reflexão.

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Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária aos princípios do Evangelho e da fé cristã.
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Conheço Dilma Rousseff desde criança. Éramos vizinhos na rua Major Lopes, em Belo Horizonte.
Ela e Thereza, minha irmã, foram amigas de adolescência.

Anos depois, nos encontramos no presídio Tiradentes, em São Paulo. Ex-aluna de colégio religioso, dirigido por freiras de Sion, Dilma, no cárcere, participava de orações e comentários do Evangelho.
Nada tinha de "marxista ateia".

Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte.
Em 2003, deu-se meu terceiro encontro com Dilma, em Brasília, nos dois anos em que participei do governo Lula. De nossa amizade, posso assegurar que não passa de campanha difamatória -diria, terrorista- acusar Dilma Rousseff de "abortista" ou contrária aos princípios evangélicos.

Se um ou outro bispo critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da verdade.

Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo.

Dilma, como Lula, é pessoa de fé cristã, formada na Igreja Católica.

Na linha do que recomenda Jesus, ela e Lula não saem por aí propalando, como fariseus, suas convicções religiosas. Preferem comprovar, por suas atitudes, que "a árvore se conhece pelos frutos", como acentua o Evangelho.

É na coerência de suas ações, na ética de procedimentos políticos e na dedicação ao povo brasileiro que políticos como Dilma e Lula testemunham a fé que abraçam.

Sobre Lula, desde as greves do ABC, espalharam horrores: se eleito, tomaria as mansões do Morumbi, em São Paulo; expropriaria fazendas e sítios produtivos; implantaria o socialismo por decreto...

Passados quase oito anos, o que vemos? Um Brasil mais justo, com menos miséria e mais distribuição de renda, sem criminalizar movimentos sociais ou privatizar o patrimônio público, respeitado internacionalmente.

Até o segundo turno, nichos da oposição ao governo Lula haverão de ecoar boataria e mentiras.
Mas não podem alterar a essência de uma pessoa. Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária ao conteúdo da fé cristã e aos princípios do Evangelho.
Certa vez indagaram a Jesus quem haveria de se salvar. Ele não respondeu que seriam aqueles que vivem batendo no peito e proclamando o nome de Deus. Nem os que vão à missa ou ao culto todos os domingos. Nem quem se julga dono da doutrina cristã e se arvora em juiz de seus semelhantes.

A resposta de Jesus surpreendeu: "Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; estive enfermo e me visitastes; oprimido, e me libertastes..." (Mateus 25, 31-46). Jesus se colocou no lugar dos mais pobres e frisou que a salvação está ao alcance de quem, por amor, busca saciar a fome dos miseráveis, não se omite diante das opressões, procura assegurar a todos vida digna e feliz.

Isso o governo Lula tem feito, segundo a opinião de 77% da população brasileira, como demonstram as pesquisas. Com certeza, Dilma, se eleita presidente, prosseguirá na mesma direção.
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FREI BETTO, frade dominicano, é assessor de movimentos sociais e escritor, autor de "Um homem chamado Jesus" (Rocco), entre outros livros.

In: Folha de Opinião. Folha de São Paulo. São Paulo, domingo, 10 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Sermão da Montanha - Versão para educadores

Recebi por e-mail esse texto e achei muito criativo e divertido também! Ele não veio com o nome do autor. Confiram!
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Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem educadores e capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens.
Tomando a palavra, disse-lhes:

– “Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles...”

Pedro o interrompeu:
– Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André disse:
– É pra copiar no caderno?

Filipe lamentou-se:
– Esqueci meu papiro!

Bartolomeu quis saber:
– Vai cair na prova?

João levantou a mão:
– Posso ir ao banheiro?

Judas Iscariotes resmungou:
– O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se:
– Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou:
– Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?

Tiago Maior indagou:
– Vai valer nota?

Tiago Menor reclamou:
– Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.

Simão Zelote gritou, nervoso:
– Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?

Mateus queixou-se:
– Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
– Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?
Caifás emendou:
– Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos, conceituais, procedimentais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:
– Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto.
– E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor titular...

Jesus deu um suspiro profundo, pensou em ir à sinagoga e pedir aposentadoria proporcional aos trinta e três anos.
Mas, tendo em vista o fator previdenciário e a regra dos 95, desistiu.
Pensou em pegar um empréstimo consignado com Zaqueu, voltar pra Nazaré e montar uma padaria... Mas olhou de novo a multidão. Eram como ovelhas sem pastor... Seu coração de educador se enterneceu e Ele continuou:

“Felizes vocês, se forem desrespeitados e perseguidos, se disserem mentiras contra vocês por causa da Educação. Fiquem alegres e contentes, porque será grande a recompensa no céu.
Do mesmo modo perseguiram outros educadores que vieram antes de vocês”.

Tomé, sempre resmungão, reclamou:
– Mas só no céu, Senhor?

– Tem razão, Tomé – disse Jesus – há quem queira transformar minhas palavras em conformismo e alienação...
Eu lhes digo, NÃO! Não se acomodem. Não fiquem esperando, de braços cruzados, uma recompensa do além. É preciso construir o paraíso aqui e agora, para merecer o que vem depois...

E Jesus concluiu:
– Vocês, meus queridos educadores, são o sal da terra e a luz do mundo...


Nobel de Literatura 2010


Autor peruano ganha a homenagem não só por sua contribuição literária, mas também devido ao engajamento político. Pela primeira vez em 20 anos o Nobel de Literatura vai para um escritor latino-americano.

O PROFESSOR DE GREGO

Manuel Bandeira


Acho sensacional esse texto do Manuel Bandeira.

“Ciro conta que:

─ Quando X assumiu o governo do Estado, tratou logo de colocar seus amigos, que eram numerosos e andavam bem esfomeados. A mudança de política permitiu demitir muita gente, que foi substituída pela gente do novo governador. Eis que, quando já não sobrava lugarão de encher os olhos e o bolso, chegou do interior do Estado mais um amigo do governador, amigo de infância a quem era impossível deixar de atender.


─ Mas também você se meteu naqueles cafundós, nunca mais deu notícia de si, ponderou o governador. Agora os melhores lugares já estão preenchidos. Em todo o caso, vou pensar no caso. Dê-me uns dias e apareça.


Três dias depois, o amigo voltou ao Palácio. Foi recebido com efusão.

─ Arranjei uma coisa ótima para você, disse o governador. Uma sinecura! Você vai ser professor de grego no Ginásio do Estado.
─ Mas eu não sei nada de grego, nem quero saber!

─ Nem precisa saber. Pela última reforma de ensino, o grego é matéria facultativa, e há dois anos não aparece ninguém para estudar grego. Portanto, tudo que você tem a fazer é comparecer no princípio do mês para receber seus vencimentos.

O amigo achou ótimo e foi nomeado. Era aí por junho; até o fim do ano não houve dúvida na sua felicidade de comensal à mesa do orçamento do Estado. Mas no começo do ano seguinte principiou ele a temer que se apresentasse no ginásio algum rapazola extravagante com vontade de aprender grego. O professor ia à secretaria do Ginásio e indagava do secretário se entre os matriculados havia algum inscrito para a cadeira. O secretário, muito amável, respondia que não, mas que aqueles rapazes deixavam tudo para a última hora e era bem possível que o professor tivesse a satisfação de conseguir um aluno. Não sabia o secretário era justamente o que o professor não queria!

Afinal, na véspera de se encerrarem as matrículas, surgiu um desalmado que desejava aprender grego para ler Homero no original. O professor ficou aterrado e correu para o Governador. Queria a demissão imediatamente, para não ficar desmoralizado.

─ Arranje-me outra coisa, pediu aflito o amigo.

─ Calma homem. Não vá ao Ginásio na primeira semana. Raro é o professor que vai. Até lá é possível que o matriculado desista do grego. Passe por aqui dentro de uma semana. Verei o que se pode fazer.

Não foi preciso outro lugar para o amigo do governador. Ele continuou como professor de grego. O aluno é que desistiu. Isto é, não desistiu, foi preso e expulso do Estado como comunista. A notícia se espalhou e nunca mais apareceu ninguém no Ginásio com veleidades de aprender grego.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Hora do Cansaço

Carlos Drummond de Andrade

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que ainda não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se torna, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho do eterno fica esse gosto acre
na boca ou na mente, talvez no ar.




In: Andrade, Carlos Drummond de. Corpo: novos poemas. 8ª. ed. Rio de Janeiro: 1986, p. 39-40.